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Cordisburgo: um mergulho no Grande Sertão de Rosa

... o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.

O dizer do personagem Riobaldo, no romance "Grande Sertão: Veredas", parece reverberar na pequena Cordisburgo, localizada a 120 km de Belo Horizonte. Os moradores, as histórias e até as impressões que vamos construindo do lugar transformam-se a cada instante, sob a influência da magia e das ambiguidades do sertão.


Cordisburgo é a terra natal de Guimarães Rosa e, apesar dele ter passado grande parte de sua vida em outras paragens, sua obra está presente em cada canto da cidade. As referências estão nas lojas, banquinhas de artesanato, restaurantes e se materializam em vários suportes: desde lembrancinhas para turistas até cartazes que exibem trechos de contos ou romances. 


Algumas vezes a menção está no nome do próprio estabelecimento. Caso do restaurante Sarapalha, que além de ser batizado com o título de um conto do livro Sagarana, tem decoração temática que inclui uma escultura do escritor e quadros com textos informativos sobre a obra.


A homenagem mais expressiva talvez seja a loja de José Osvaldo dos Santos, conhecido como Brasinha. O lugar já foi uma loja de verdade, que vendia de tudo, mas hoje é uma espécie de armazém entupido de cacarecos e nenhum deles está à venda. Misturados aos objetos, estão inúmeras placas com frases dos personagens de Rosa. 

A loja de mentira foi apropriadamente batizada com o nome "Ave Palavra" - título de um livro póstumo do escritor, que reúne vários tipos de textos e ele próprio havia definido como uma miscelânea.

Brasinha dá vida ao lugar contando a história de cada peça, relatando causos da região e citando trechos das obras de Rosa. Ao ouvi-lo, temos a sensação de que andando pela cidade iremos nos deparar com os personagens de algum daqueles livros. 


Infelizmente, ali não vive mais nenhum deles. Todos já se encantaram, como dizia o próprio Rosa. Então o jeito é encompridar a conversa e conhecê-los pelos relatos de Brasinha e de outros contadores.


O comerciante Geraldo de Cunha Castro, por exemplo, conta que conheceu Juca Bananeira e Manuelzão. O primeiro foi amigo de infância de Guimarães Rosa e ganhou esse apelido porque veio de Bananal, um vilarejo perto de Curvelo. Já Manuelzão, era de Dom Silvério, e só  conheceu o escritor quando ele voltou ao sertão para fazer a pesquisa que fundamentaria o Grande Sertão.


Geraldo conta que, nessa época, Manuelzão trabalhava para um primo de Rosa, Chico Moreira, e foi um dos companheiros do escritor  na famosa viagem, realizada 1952, que lhe deu subsídios para escrever o romance.


Antes de partirem, Rosa teria passado uns dias na fazenda onde Manuelzão vivia com a família e um de seus filhos, ainda criança, teria se impressionado "com aquele homem bobo que andava com uma caderneta pendurada no pescoço anotando tudo o que via".


Tanto Geraldo como Brasinha conheceram todos os vaqueiros que tocaram aquela boiada sem ter a menor ideia da dimensão histórica do que estavam vivendo. Segundo Brasinha, tempos depois da viagem, o vaqueiro Zito, já velho, teria feito a seguinte confissão: "Esse homem, o João Rosa, nos ensinou a ver a beleza das coisas".


A viagem, é claro, rendeu muitas histórias, mas contar isso aqui agora exigiria outras tantas postagens. E Cordisburgo tem ainda muitos aspectos a serem explorados.


O Museu Casa de Rosa 

A memória fragmentada das ruas faz contraponto com a morada oficial das recordações: o Museu Casa de Guimarães Rosa, montado na casa em que o escritor nasceu e passou seus primeiros nove anos. Nele estão concentrados os poucos objetos que restaram, como máquina de escrever,  as gravatas borboletas e alguns móveis do armazém de secos e molhados de seu Florduardo, pai de Rosa, em meio a reconstituições cenográficas.


O museu também guarda a memória das obras, com painéis que reproduzem trechos de contos e romances e apresentam capas das principais edições. Isso sem falar na estante especial que reúne as edições mais importantes de cada obra.


Logo na entrada da casa, uma surpresa: quem nos guiará pelos vários cômodos do museu é uma menina de apenas 10 anos. O texto parece decorado, mas quando começamos a fazer perguntas, descobrimos que a jovem guia sabe do que está falando e responde tudo sem pestanejar. Ao final da visita, oferece um presente: a narração do episódio da morte do Dito, no conto Campo Geral do livro Manuelzão e Miguilim.


Grupo Miguilim

Luana Mattana Rezende é apenas uma das várias crianças e adolescentes que fazem esse trabalho voluntário no Grupo Miguilim - batizado assim em alusão ao personagem central do conto Campo Geral, que alguns dizem ser autobiográfico.  Para chegar a essa condição, ela cumpriu alguns requisitos: tinha que estar na escola, ter boas notas e precisou se preparar durante quase três anos.


O treinamento é feito pelas diretoras do grupo e também contadoras Dôra Guimarães e Elisa Almeida. Elas herdaram a função de Calina Guimarães que, anos atrás, recuperou o museu de um estado de abandono e, com a ajuda das duas, deu início ao grupo.


O primeiro passo é explicar aos meninos a obra a ser trabalhada porque, como lembra Dôra, "quando você não entende o que está falando, as pessoas que ouvem também não vão entender". Depois vêm as leituras, que vão se repetindo até os meninos conseguirem atingir uma dramaticidade natural. "A narração só fica boa quando já está internalizada a ponto de você não se preocupar mais com o texto", esclarece Dôra.

As vozes suaves e a discreta interpretação desses meninos nos ajudam a digerir com maior facilidade obras festejadas pela originalidade e pela riqueza de linguagem, mas que causam uma estranheza capaz de dificultar a compreensão e fazer até mesmo os 'bons leitores' as abandonarem nas primeiras páginas.


Com suas narrações, os Miguilins vão fazendo as pessoas internalizarem a linguagem e se acostumarem com ela, de modo que a leitura, antes árida, torna-se uma viagem poética.

A obra máxima

"Grande Sertão:Veredas", como muitos sabem, incorpora elementos de várias culturas e fala de questões universais como a origem e o destino do homem; o bem e o mal; Deus e o diabo; tendo como fio condutor uma história de amor - um amor que se mostra proibido do começo ao fim do livro, embora o alegado motivo da proibição de fato não existisse.


Riobaldo, um ex-jagunço que se tornou proprietário de terras, relata um período de sua vida localizado entre a infância e o momento em que abandonou essa experiência paramilitar.


Toda a história é costurada por sua relação com um colega "diferente", iniciada quando ainda eram crianças: O menino tinha me dado a mão para descer o barranco. Era uma mão bonita, macia e quente, agora eu estava vergonhoso, perturbado.


Daquela época até a idade adulta,  Diadorin foi a razão de sua alegria e de seu sofrimento, de sua satisfação e de suas dúvidas: Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas.


Até o dia em que morte traz a revelação: Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. 


A história é contada com sotaque sertanejo, ora existente, ora inventado, mas tudo dentro da lógica da paisagem e do povo do lugar. Tanto que para os nativos de Cordisburgo e das cidades vizinhas, pelo menos para os que gostam de ler, nunca foi difícil chegar até a última página.


Para os que olham de fora, "Grande Sertão:Veredas" é um livro escrito em linguagem original e inovadora, que consegue fundir elementos da primeira fase do Modernismo - marcada pelo experimentalismo linguístico - com traços da segunda fase, que traz à tona os temas regionalistas. Foi o único livro brasileiro incluído na lista dos 100 melhores de todos os tempos elaborada pelo Clube do Livro da Noruega, que congrega editores daquele país. É a obra principal de Rosa, mas não é a única. E o povo de Cordisburgo sabe disso, tanto que as referências espalhadas pela cidade remetem a várias obras.


A trajetória de Rosa

João Guimarães Rosa, como muitos escritores, teve mais de uma profissão. A escrita veio cedo, antes mesmo de entrar para a faculdade. Ele formou-se médico em Belo Horizonte e começou a trabalhar perto de casa, em Itaguara, então município de Itaúna. Consta que foi lá onde ele estabeleceu contato com os elementos do sertão que mais tarde inspirariam grande parte de sua obra.


Ainda como médico, trabalhou também para Força Pública, atual polícia Militar, e morou em outros dois municípios mineiros: Passa Quatro e Barbacena. Poucos anos depois foi aprovado em um concurso do Itamaraty, indo servir como diplomata em Hamburgo, na Alemanha, e em seguida em Bogotá e Paris. Como escritor, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e indicado ao prêmio Nobel de Literatura.


Conta-se que além das pesquisas que fez diretamente, Rosa contou com a colaboração de diversas pessoas, a quem pedia informações do sertão por meio de cartas, e entre os colaboradores estava seu próprio pai.


Rosa era um grande estudioso de línguas. Falava umas seis ou sete, lia em três ou quatro e conhecia a gramática de outras dez ou onze. Talvez por isso, tenha inventado com tanta facilidade a linguagem do "Grande Sertão:Veredas" e sentido tanta necessidade de variar: "Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente."


Calendário rosiano

Por causa de Rosa, a pequena Cordisburgo tem uma constante atividade cultural. Além do museu, que se torna vivo pela atuação dos Miguilins, há também os contadores adultos e o grupo de bordados, iniciado na cidade e espalhado por outros cantos como, por exemplo, São Paulo.

Uma vez por ano, é celebrada a Semana Rosiana, com diversas atividades que incluem oficinas, palestras, cursos, exposições, apresentações e caminhadas literárias. O encontro é realizado há 30 anos e reúne um público fiel, que se aprofunda a cada ano no estudo da obra de Rosa, com rodas de leitura, narrações e saraus.

E como aqui se sabe que as pessoas não estão terminadas, acaba de ser anunciado o tombamento de uma casa antiga, ao lado do museu, para que artistas e pesquisadores possam fazer residência literária e estudar ainda mais a obra de Rosa. Nessa nova parte funcionará também a sede dos Miguilins, afinal, no sertão, o que uma pessoa pode fazer do seu tempo livre a não ser contar estórias ?


Cordisburgo - Minas Gerais - Brasil

Texto: Sylvia Leite 

Jornalista - MTB: 335 DRT-SE Fotos: Sylvia Leite



Texto retirado do site Lugares de Memória

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